Maré Vazante

Maré vazante quase transbordante.

 

A primeira parte dessa história consiste na intensa tentativa de recorrer as palavras. A distância faz a vida passar menos rápido, sinto o tempo através dos post-its grudados. O coração não pesa, ele apenas bate. Assim vivemos.

 

A sensação é de estar no intenso vácuo do acaso. Tento me enquadrar em um lugar que desconheço, sentindo um certoestranhamento.  Indo de encontro com o mistério da novidade, me imbuindo de cuidados frágeis para me entregar inteiramente ao novo. Sem hesitar, reestabelecendo meus próprios códigos de felicidade. Sou dona de mim. E na forma do amor, feito todo ele de cartilagem, está o buraco mais fundo da minha crença que só é passível de ser mutável na direção do afeto. Esse é o amor que eu posso dar e ele é pedra bruta a ser lapidada constantemente.

 

Somos feitos de osso, mais que de carne, nossa junta cansa, nosso dente range e de vez em quando a gente geme. Somos seres geneticamente pertencentes, com diferentes manias e diferentes células, mas assim como as estrelas, alguém brilha em nós. E somente nós, sabemos a delícia e a dor de apreender a solidão.  Às vezes é necessário doer para reencarnar.

 

Tive um sonho ruim e quando acordei desapareci. O céu estava anoitecendo no azul apagante. E na singeleza do cômodo eis que envelheci profundo. Meu cabelo se embaralhou nos meus olhos, entre as minhas orelhas e entrou na minha boca. E eu fui me acostumando com a força do vento, fui jogando esse amor pro alto feito purpurina para lamber na cara, cheiro de carnaval. Não estaremos mais apodrecendo. Fato, precisávamos desse tempo.

O tempo certo para afastar, congelar, nos deslocar e descolar. A força do seu cheiro no meu pensamento. A constante lembrança desse amor que a gente faz quando a gente só se lembra. Seu pelo no meu peito. Meu espírito dança quando pensa em você. Choro sem fazer barulho. Isso é alívio profundo.

Temos todo o tempo do mundo para nos redescobrirmos em nós mesmos. A vida vai andar pra frente, ruas estreitas, esbarrando, se embolando gente, equivalentemente amenizado. Quantas surpresas vão acontecer, não sabemos. Quantos amores estão por vir, não medimos. Quantas chances teremos de ser feliz, não contamos. Esse intervalo é a pausa para o nosso recomeço.

Continuamos jorrando pétalas de flores para transformar o chão que a gente pisa, abrindo os caminhos para se reencontrem ou se dispersarem por onde se cruzar, na sua força, no seu destino. Que seja a nova descoberta de estar amando o velho e único amor. Perdão pela sinceridade. Amém.